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Caderno do Fio da Memória sobre "Ana de Deus"

Sexta-feira, 02.09.11

Para quem tiver tempo e paciência deixo aqui o trabalho que fiz sobre "Ana de Deus Barbeira - Tecedeira de mantas e memórias", por encomenda do Núcleo de Animação Cultural da Câmara Municipal da Guarda. O texto faz parte da colecção de cadernos do Fio da Memória.

Quem gosta do Marmeleiro, vai gostar de ler.

 

O Caderno está à venda no Posto de Turismo da Câmara Municipal da Guarda, que fica na Praça Velha, junto da Sé.

Preço - 2,50 euros

 

 

Ana de Deus Barbeira

Tecedeira de mantas e memórias

 

Introdução

 

Há vidas que são autênticos livros de sabedoria que continuam à espera de ser escritos e folheados. Quantos saberes e tradições vão desaparecendo com o tempo?

O Marmeleiro, no concelho da Guarda, sempre foi rico em tradições e costumes que, aos poucos, se vão esfumando como se nunca tivessem existido.

Onde estão os cantadores de janeiras que, no dia primeiro do ano, levavam alegria a todas as casas da aldeia? O encanto de passar de casa em casa a cantarolar “janeira pedimos,/ saco trazemos, /dê-no-la cá /que nós nos iremos” caiu no esquecimento e já não tem seguidores.

Do Entrudo pouco ou nada resta. O julgamento do Galo do Entrudo, que chamava a aldeia para a brincadeira, fazendo rir miúdos e graúdos, foi completamente posto de lado. São poucos os que ainda se recordam da entrega das partes do malfadado bicho, na tarde de Domingo Gordo, no Largo do Reduto.

E as tradições da Quaresma? Com o passar do tempo vão-se esmorecendo as vozes que entoam os Martírios e a Encomendação das Almas. Faltam as forças aos mais idosos para trepar aos balcões ou percorrer as ruas da aldeia, pela calada da noite.

E os Domingos passados à volta do cântaro de barro que passava de mão em mão, até se partir, em mil pedaços, quando algumas mãos menos seguras o não conseguiam apanhar?

E a xona, o pião, o berlinde, a carica e as escondidas… e tantos outros jogos vividos, à volta de São Domingos, no Adro da Igreja, ou na zona do Mercado? Tudo foi ficando para trás, apenas guardado na memória dos mais velhos.

O repicar dos sinos anunciava aleluias e dava termo ao jejum e à Quaresma. “Reza que já passou a Quaresma” - diziam os mais afoitos, na manhã chamada da Ressurreição.

O mês de Maio primava pela devoção Mariana. À hora do Mês de Maria, todos marcavam presença, na Igreja, e os mais pequeninos corriam para oferecer as florinhas a Nossa Senhora.

O São João e o São Pedro traziam o povo à rua. O cheiro a rosmaninho e a bela-luz espalhava-se, pela aldeia e entranhava-se nas casas. Eram dias de alegria e de muitos bailes populares que se estendiam pelos principais largos da povoação.

Esta era também a época das ceifas. Nos campos aloirados e maduros de centeio e trigo, as foices trabalhavam, de sol a sol, com pequenos intervalos para a bucha, que enganava a fome. Os dias terminavam, já noite avançada, com ranchos de homens e mulheres perdidos entre cantigas e conversas.

Onde estão os campos de searas prontas para as foices dos ranchos de ceifeiros? O que é feito das cantigas que homens e mulheres aprenderam, desde o berço, e guardaram, na memória de uma vida? 

Julho e Agosto eram meses de grande azáfama nos campos. Os fenos primeiro e, mais tarde, o arrancar das batatas, eram tarefas que envolviam grande massa de povo. Estas tarefas obrigavam a um grande esforço físico e promoviam a inter-ajuda. Aqui e ali, eram constantes os magotes de gente que ia peneirando tornas e mais tornas de terreno.

Seguia-se a apanha do feijão, do grão, dos chícharos e do milho. Era o tempo dos primeiros serões em que se limpavam as sementes e se descamisavam as maçarocas.

 As vindimas faziam adivinhar a aproximação do Outono. A passarada começava a fazer estragos, não havia tempo a perder. As facas estavam afiadas e os cestos prontos. Para trás, ficavam alguns respigos que as folhas de mil cores não deixavam vislumbrar.

Como “pelo São Francisco castanhas pelo xisco”, as manhãs e as tardes de Outubro eram passadas nos soutos. Os ouriços iam abrindo lentamente, deixando escapar as castanhas mais saborosas da região.

Nos campos, faziam-se as sementeiras. As juntas de vacas puxavam os arados de pau, abrindo camalhões, nos terrenos mais molhados.

Os rodados dos carros não paravam de chiar pelos caminhos do Ribeiro, do Minhalveiro, da Lameira d’Égua, dos Pontes Carros, do Chiqueiro, da Sobreira, da Abrunheira, da Fonte Amieiro, da Retorta, da Moita, do Gafanhão e de tantos outros lugares dos limites da aldeia.

Os moinhos da Ribeira de Ade abriam as portas, depois das primeiras chuvas de Outono. E lá vinha o ditado popular: “Mal vai aos campos se a ribeirinha de Ade não moer o pão dos Santos”.

Os meses de Inverno eram passados à lareira e em tarefas mais leves e caseiras. Faziam-se os nagalhos para o feno, preparavam-se os ancinhos, o milho… Havia sempre alguma tarefa a fazer.

O Natal era vivido, em família, ao calor da fogueira. Havia alegria e vontade de celebrar o nascimento de Jesus. Junto à chaminé, as botas e tamancos aguardavam as prendinhas, que não passavam de uns rebuçados e, por sorte, alguma laranja. Apesar da simplicidade e da pobreza havia um grande espírito de festa, traduzido na ajuda, nomeadamente entre vizinhos.

O acender da fogueira e o repicar dos sinos, à meia-noite, eram autênticos rituais que congregavam quase toda a aldeia.

Outros usos e costumes, outras formas de viver que, com o passar do tempo, se vão esvanecendo e perdendo na memória dos mais velhos.

Este caderno do Fio da Memória pretende ser uma pequena homenagem, aos homens e mulheres que fizeram do Marmeleiro e no Marmeleiro a sua vida.

“Ana de Deus – Tecedeira de mantas e memórias” mais não é que o regresso a um passado ainda muito presente.

 

 

Ana de Deus Barbeira

 

Marmeleiro, 15 de Outubro, de 1926. Começava, nesta data, a aventura de Ana de Deus Barbeira, a mais velha de dez irmãos. Filha de Aníbal Barbeira e Maria Isabel aprendeu, desde cedo, a lidar com todos os trabalhos ligados à vida do campo, para além de ajudar a criar a Maria, o Ponciano, o Manuel, o Firmino, a Felicidade, o José, a Pureza, a Cândida e a Lisete.

O tempo que passou na escola foi tão pouco que não deu para a prender a ler nem escrever. Ainda se recorda do senhor professor Rodrigues ter dito à Mãe que a escola fazia mais falta aos rapazes, por causa da tropa. “Ó Maria olha que a escola faz mais falta aos rapazes que às raparigas” - vaticinou o antigo mestre, que ensinava as crianças na velha escola da aldeia.

“Tiraram-me a mim da escola para meter o Ponciano” - desabafa com o desencanto de não lhe terem dado a possibilidade de aprender, ao menos, a escrever o nome. E continua: - “Andaram todos na escola, só me tiraram a mim e empontaram-me a guardar as ovelhas”.

Desde cedo, que começou a guardar ovelhas, enquanto o pai ia trabalhar para a fábrica de minério que havia na localidade vizinha de Pêga, ou para o Cabeço das Fráguas, “a ganhar dez escudos”.

Como o pai estava fora, tinha de cuidar da parte agrícola da casa, juntamente com a mãe e os irmãos.

Todos ajudavam, pois os tempos eram de miséria e de grande dificuldade. A mãe fazia queijos, com o leite das ovelhas, para ajudar na economia da casa. Na sementeira das batatas, do milho, do feijão, do centeio e do linho, havia sempre a colaboração dos irmãos.

A ceifa, a recolha do feno, as vindimas, a apanha das castanhas são outras tarefas que conhece muito bem e que ocupavam as gentes do Marmeleiro, noutros tempos. “As castanhas eram para comer e vender, pois sempre se fazia algum dinheirito”.

Da Retorta ao Minhalveiro, da Abrunheira ao Carvoeiro, da Lameira d’Égua aos Pontes Carros, muitas vezes trilhou os caminhos que ligavam as propriedades espalhadas nestes sítios da freguesia.

Outra das tarefas que tinha de desempenhar, quase todos os dias, era a lavagem da roupa. O sabão feito em casa e, mais tarde, o cor-de-rosa e azul, ajudava a amaciar os trapos da pequenada. De alguidar à cabeça, lá ia a caminho da Ponte, da Fonte Amieiro ou do Minhalveiro, sítios da ribeira, onde era costume haver gente a lavar, corar, e estender a roupa. 

Com tantas tarefas pela frente, não restava tempo para mais nada. Sempre a correr, de um lado para o outro, as brincadeiras ficavam esquecidas e guardadas nos sonhos de menina.

Ana de Deus Barbeira aprendeu a crescer no trabalho da terra e na labuta constante em tarefas mais apropriadas a gente graúda e feita. De mangas arregaçadas, desde cedo soube lidar com as ovelhas, as sementeiras e as ceifas, sem intervalos para queixumes e lamúrias. Era assim, a vida do campo, a vida da aldeia. Apesar das dificuldades, havia felicidade e espírito de família.

 

 

Pastora

 

Guardar ovelhas era trabalho comum a muitas crianças, nos campos do Marmeleiro. Deixar a escola, para caminhar atrás de uma piara de ovelhas era normal. As letras e os números podiam esperar, ao contrário do rebanho que balia de fome, ainda a aurora começava a despontar.

O galo já tinha cantado no poleiro e a passarada chilreava no arvoredo, anunciando um novo dia. Ao longe, ouviam-se os cães ladrar, chamando os donos para mais uma jornada de trabalho.

Aos poucos, as ruas enchiam-se de rebanhos a caminho das pastagens, nos limites da aldeia. Os pequenos pastores caminhavam, lado a lado, com as ovelhas mais ronceiras. Os cães abanavam o rabo à espera de uma côdea de pão ou de algum petisco para enganar a fome.

Era o começo de mais um dia, na então povoada aldeia de Marmeleiro. Pelo caminho cruzavam-se homens e animais, por vezes com grande balbúrdia pelo meio.

Com calma, ao ritmo do rebanho, que aqui e ali abocanhava mais um pedaço de erva, os pastores iam dando ordens e atirando com o cajado às ovelhas mais teimosas.

Ana de Deus era uma das muitas crianças a conduzir o rebanho pelos caminhos e veredas do Marmeleiro. Tal como outros meninos da sua idade também ela saiu da escola para guardar ovelhas. Guardava uma pastoria com vinte ou trinta ovelhas, de sol a sol.

Com o farnel aos ombros, percorria as pastagens, no sítio de Monte Cordeiro, Vale d’Areia, Rabita e Carvoeiro, Sobreira, Lapinha e tantos outros.

“Nunca vi nenhum lobo” garante Ana de Deus. E explica: “Antigamente não havia tanto mato. Íamos daqui (Marmeleiro) até ao Vale da Margarida a buscar uma carguinha de lenha. Como não havia mato, os lobos não tinham sítios para se esconderem e só por aqui passavam de quando em vez. Mas quando se lembravam de vir para esta zona faziam autenticas chacinas”.

Os lobos há muito que desapareceram, do limite da freguesia do Marmeleiro mas, noutros tempos, dizem os mais antigos, eram muito frequentes. Os pastores andavam sempre com o coração nas mãos e guardados por cães de grande porte.

À noite, as ovelhas regressavam aos currais, ou ficavam na malhada. Dormir na choça era frequente, nos meses de Verão.

A ordenha das ovelhas era tarefa reservada aos mais velhos. “O meu pai ordenhava as ovelhas e a minha mãe fazia os queijos” - recorda Ana de Deus. Numa altura em que faltava quase tudo, principalmente o dinheiro, os queijos eram para vender nos mercados da Vila do Touro, da Miuzela e da Guarda.

“Agora é tudo diferente, é um mundo novo, já nem sabem o que é trabalhar”, refere a mulher que foi menina pastora. E acrescenta: “Já era grande quando deixei de andar com as ovelhas”.

Do tempo de pastora guarda boas recordações, principalmente de quando se juntava com os filhos do Ti António Reduto. “Encontrávamo-nos muitas vezes porque eles também tinham ovelhas”, explica.

Ainda se lembra da tosquia das ovelhas, no final de Maio e em Junho. “Os homens tosquiavam as ovelhas de forma manual e com tesouras bem afiadas” e a lã era toda para vender.

A arte da tosquia não era para todos, obedecia a muito cuidado e paciência para não cansar nem ferir o animal. Havia sempre uma das ovelhas que era enramada ou tosquiada mais ao pormenor.

A tosquia, além de ser um factor económico relevante através da venda da lã, era, também, necessária para que as ovelhas suportassem, melhor, os dias quentes de Verão.

A alimentação das ovelhas era, essencialmente, a erva que encontravam nos campos do Marmeleiro. Os pastos, utilizados num sistema de rotatividade, com apenas alguns dias de diferença, localizavam-se nas zonas mais afastadas da aldeia.

Guardar ovelhas era um trabalho muito exigente. Não podia haver descuidos para que nenhum animal ficasse para trás. Uma responsabilidade que Ana de Deus carregava cada vez que deitava fora o rebanho.



Ceifeira

 

Quinta de Gonçalo Martins, Martim Pega, Bendada e Belmonte eram algumas das localidades onde o rancho do Marmeleiro ceifava muitos campos de centeio. Quando as searas aloiravam já as foices estavam prontas para a faina. O pão era ceifado bem maduro, geralmente em Julho. 

Os manejeiros davam a última volta pelas casas da aldeia para confirmarem os elementos que iriam integrar o rancho (grupo de vinte, trinta pessoas). No dia marcado, o grupo saía, bem cedo, do Marmeleiro, a caminho da casa do primeiro patrão.

A chegada às povoações era anunciada através de cantigas, que ainda hoje são recordadas, com saudade.

A quadra solta, que se segue, é exemplo da riqueza popular cantada, no tempo das ceifas, pelos campos do Marmeleiro e das redondezas:

 

Ainda agora aqui cheguei

Mais cedo não pude vir.

Ainda venho a tempo

Das suas falas ouvir.

 

Curioso é também o facto de, por entre as cantigas populares, aparecer sempre um grande sentimento de religiosidade. O “Lavrador da arada” não deixava ninguém indiferente. Eram cantigas como esta que ajudavam a encarar o trabalho com mais afinco e dedicação.

 

O Lavrador da arada[1]

 

Vindo o lavrador da arada,

Ó meu Jesus!

 

Encontrou um pobrezinho.

Ó meu Jesus!

 

O Pobrezinho lhe disse:

Ó meu Jesus!

 

Leva-me no teu carrinho.

Ó meu Jesus!

 

Deu-lhe a mão o lavrador.

Ó meu Jesus!

 

E no seu carro montado,

Ó meu Jesus!

 

Levou-o para sua casa,

Ó meu Jesus!

 

Para a melhor sala que tinha.

Ó meu Jesus!

 

Mandou-lhe fazer a ceia

Ó meu Jesus!

 

Da melhor coisa que tinha.

Ó meu Jesus!

 

Mandou-lhe fazer a cama

Ó meu Jesus!

 

Da melhor roupa que tinha.

Ó meu Jesus!

 

Por baixo, damasco roxo,

Ó meu Jesus!

 

Por cima, cambraia fina.

Ó meu Jesus!

 

Lá pela noite adiante,

Ó meu Jesus!

 

O pobrezinho gemia.

Ó meu Jesus!

 

Levantou-se o lavrador,

Ó meu Jesus!

 

A ver o que o pobre tinha

Ó meu Jesus!

 

Achou-o crucificado,

Ó meu Jesus!

 

Numa cruz de prata fina.

Ó meu Jesus!

 

Ó meu Jesus, quem soubera

Ó meu Jesus!

 

Que em minha casa Vos tinha.

Ó meu Jesus!

 

Mandava fazer a ceia

Ó meu Jesus!

 

Da melhor coisa que havia.

Ó meu Jesus!

 

Cala-te lá, ó lavrador,

Ó meu Jesus!

 

Não fales com fantasia.

Ó meu Jesus!

 

No céu, te tenho guardado

Ó meu Jesus!

 

Cadeira de prata fina.

Ó meu Jesus!

 

Tua mulher, ao teu lado,

Ó meu Jesus!

 

Que também o merecia.

Ó meu Jesus

 

O Rancho cantava “As pombinhas da Catrina”, a “Laurindinha”, a “ Linda costureirinha” e muitas outras cantigas.

O pão era ceifado à foice e, mais tarde, à gadanha. Os chapéus de palha e os lenços coloridos protegiam as mulheres do calor tórrido de início de Verão. As bilhas de barro cheias de água iam dando a volta matando a sede aos ceifeiros.

Os molhos de pão eram atados pelos manejeiros que incentivavam os ceifeiros a trabalhar mais depressa. Quando a noite começava a cair e era preciso acabar uma tapada (terreno onde estava semeado o centeio), bastava um reparo do manejeiro para os ceifeiros entrarem em despique.

Os molhos de pão eram juntos em rolheiros, para proteger o grão nas espigas de eventuais trovoadas e para facilitar a carranja (transporte do centeio para a eira).

“Andávamos sempre a trabalhar, era de sol a sol”, explica Ana de Deus que ainda guarda marcas de alguns descuidos resultantes do cansaço dos dias tórridos de Verão. “Cortei a unha do dedo mindinho, da mão esquerda, no dia em que andávamos para T’Jerónimo Conde, a ceifar”.

“Nas ceifas corríamos Seca e Meca, agora nem numa foice sabem pegar” - adianta Ana de Deus.

O dia de ceifa começava muito cedo e a alimentação era essencial. Antes de dar início ao trabalho, o rancho comia o almoço (sopa, batatas); a meio da manhã – 10.00 horas - o cravelo (pão, queijo); ao final da manhã, início de tarde – 13.00 horas - o jantar (sopa, arroz, massa, carne); a meio da tarde – 17.00 horas – a merenda (papas, arroz, pão, queijo, morcela, farinheira); à noite, no final do trabalho, a ceia (papas, arroz doce, batatas com azeite e cebola).

Ana de Deus recorda o tempo das ceifas e também se lembra de toda a labuta que se seguia com a carranja e a malha do pão.

O pão era "carranjado" para a eira, utilizando os carros de bois, com os estadulhos dos compridos (altos e afiados na ponta para espetar os molhos).

Nas eiras, os molhos do pão eram dispostos em medas, de forma a proteger o grão da chuva, que apenas eram desfeitas no dia da "malha".

A malha era um dia de grande azáfama. Depois de separar o grão do centeio da espiga, a palha era levada para os palheiros, devidamente acondicionada pelo palheireiro, para que a água da chuva pudesse escorrer mais facilmente.

Inicialmente feita de forma manual, com a ajuda do mangual, a malha passou, mais tarde, a depender da "malhadeira" - máquina debulhadora que também foi evoluindo ao longo do tempo.

 

Minério

 

No Marmeleiro, a corrida ao minério marcou várias gerações. A extracção de minérios metálicos vem de longínquos tempos e está bem vincada na tradição popular da aldeia. O sítio das Ferrarias[2], onde nasce o ribeiro do Gorgulão guarda segredos e mistérios de um passado marcado por ditos e lendas.

 

“Entre as Ferrarias e o Covão,

Sete minas se acharão:

Três de ouro e três de prata,

Uma de fogo de alcatrão”.

 

Ana de Deus ainda recorda o tempo em que ia para a folha (terrenos usados para a sementeira do centeio e para pasto das ovelhas) à procura de minério. “Quem podia andava ao minério, principalmente no Inverno, quando havia menos que fazer”, explica. E acrescenta: “Andávamos toda a semana ao minério e, quando chovia muito arrebanhávamos a terra que lavávamos para ver se encontrávamos o minério, que era preto”.

Monte Cordeiro, Rabita e Descabeça eram os sítios, do Marmeleiro, onde havia mais minério. O filão na Descabeça era dos melhores das redondezas. A fome de minério, por vezes, tornava-se perigosa e mesmo mortal. O desbravar do filão, sem ter cuidado com as derrocadas, tirou a vida a vários exploradores. “Na Descabeça, morreu lá um homem devido à queda de um lanço de terra” recorda Ana de Deus. Outra das situações mortais aconteceu na Rabita, quando um barroco caiu em cima de uma mulher.

Ao olhar para trás, Ana de Deus diz que, no Marmeleiro, o minério era abundante e, por isso, eram muitos que o procuravam apesar de ser muito mal pago. “Não dava para o pão mas, ao menos tirávamo-nos do povo e sempre arranjávamos algum dinheiro”, explica.

O minério era vendido, ao peso, em Pega ou em Pousafoles do Bispo, aldeias próximas do Marmeleiro.

Garante que “o minério ainda não acabou e que há muitos filões à espera de serem minados”. O abandono dos campos e a fuga das pessoas para as grandes cidades acabou por ditar o fim de uma actividade que envolveu dezenas e dezenas de pessoas.

 

 

Contrabando

 

“A minha vida bem contada dava um romance” vai dizendo, a rir, Ana de Deus. Nunca foi amiga de grandes viagens, mas visitou, por várias vezes, as cidades de Lisboa, Coimbra e Seia, e ainda vai, com frequência, à Guarda. “A primeira vez que fui a Lisboa fui mais a Ti Emília e quem nos levou foi o Júlio Reduto. Lembro-me de termos passado na Ponte 25 de Abril”.

Numa altura em que havia muitas dificuldades, as gentes do Marmeleiro caminhavam para Espanha, onde os produtos eram mais baratos. Ana de Deus ainda se recorda do percurso que faziam, a pé, desde o Marmeleiro até à fronteira. “Íamos a pé, em direcção ao Peroficós, Valongo, Vilar Maior e Batocas e demorávamos dois dias, um para lá e outro para cá”.

Para ganharem algum dinheiro, muitas das pessoas que iam fazer compras a Espanha também levavam alguns produtos para venderem. “Não podíamos transportar muita coisa mas uns ovitos sempre passavam”. E explica: “Para os carabineiros não nos tirarem os ovos, dividíamos a carga por todas, pois só havia problema se fosse em grandes quantidades”.

De Espanha traziam muitos produtos, nomeadamente carne, galhetas e outras doçarias, enxadas, garranchos e calçado.

Era uma autêntica aventura que obrigava a grandes cuidados devido à presença constante dos carabineiros.

Apesar das muitas vezes que foi a Espanha, os carabineiros nunca a mandaram parar, mas andava sempre com o coração nas mãos. Da mesma sorte não se podem gabar outras pessoas que acabavam por regressar ao Marmeleiro sem nada, quando não conseguiam escapar ao controle.

Sempre se ouviu dizer que “onde há raia há contrabando” e o Marmeleiro fica, relativamente perto da Raia. Ainda hoje, os mais velhos contam histórias passadas, no escuro da noite, quando seguiam por caminhos traçados e imaginados em direcção à raia.

Agora, as pessoas podem fazer compras, em Espanha, sem a preocupação de terem de andar a fugir dos carabineiros. “É tudo diferente e não há tanta necessidade como havia antigamente”, explica Ana de Deus.

 

 

 Tecedeira de mantas de farrapos

 

A lançadeira não parava de manhã até à noite.

De um ao outro lado do tear, a gasta lançadeira ia entrelaçando os fios da teia que davam forma a mais uma manta de farrapos. Ana de Deus perdeu o conto às mantas feitas e só parou de tecer depois da morte da mãe. “Deixei de tecer quando a minha mãe morreu. Desde essa altura que não voltei a fazer mais nenhuma manta”.

A arte de entrelaçar os fios com os farrapos aprendeu-a com uma mulher do Marmeleiro da qual já não recorda o nome. “Já tinha alguns cinquenta anos quando comecei a tecer”, explica.

Nessa altura havia muitas tecedeiras no Marmeleiro mas, com o passar do tempo, os teares foram deixando de trabalhar.

Ana de Deus ainda se lembra do dia em que comprou o tear, por cinquenta escudos. E adianta: “cinquenta escudos, nessa altura, era muito dinheiro”.

A juntar ao preço, houve outros contratempos que foi preciso ultrapassar. “Tive de dizer a uma mulher para se ir embora, por estar a infernizar a minha mãe devido à compra do tear”, recorda.

Ana de Deus não gostou de ouvir a mulher dizer à mãe, “ó Maria, mal empregado dinheiro que deste pelo tear” e pediu-lhe para sair da loja onde estava montado o tear.

Aos poucos começou a ganhar gosto pela arte e não tardaram a chegar encomendas das aldeias mais próximas. “Teci mantas para o Marmeleiro, Quinta, Penedo e Monte Brás, mas já não sei quanto levava por cada uma, se calhar alguns dez escudos”, adianta.

Quem fazia as encomendas levava os farrapos e o algodão para urdir.

O processo de fabrico da manta passava por diversas fases: primeiro urdia o algodão que depois era posto no tear; a seguir, os fios eram postos no pente; os trapos (farrapos devidamente cortados e enrolados) seguiam para as lançadeiras.

O aproveitamento de tecidos já usados dava origem à tecelagem em trapos para o fabrico de mantas e passadeiras. O tecido, cortado em tiras estreitas, era unido com um nó ou alinhavos simples, formando novelos de cores idênticas ou diferentes.

O resultado final, fruto de muitas horas de trabalho, era uma autêntica obra de arte, de variadíssimas e atractivas cores.

É com saudade que recorda os dias em que os alunos da escola a visitavam, no local de trabalho. “Os meninos da escola primária vinham cá todos os anos para ver como é que eu trabalhava”, explica.

Em certa ocasião, esteve quase para ir ao Sabugal, mas acabou por declinar o convite do Padre Zé Oliveira. O então pároco do Marmeleiro queria que Ana de Deus participasse numa exposição em que eram apresentadas artes e ofícios tradicionais da região.  

 Apesar de ter começado a tecer, com quase cinquenta anos, com o passar do tempo, tornou-se na última tecedeira de mantas de farrapos e de estopa (linho), do Marmeleiro.

Companheiro de horas e horas de trabalho, o tear está agora desarmado, em descanso merecido. Há muito que as peças foram desmanteladas e arrumadas a um canto de forma a ocuparem menos espaço. Para trás ficaram os tempos áureos de mantas e passadeiras de mil cores que faziam cobiça, em qualquer enxoval.

Aos 85 anos, Ana Deus vai gastando os dias entre o quintal, onde tem os mimos da hortaliça, e a Rua do Passo onde, nos balcões de granito, descansa de tantos e tantos trabalhos, entre dois dedos de conversa, com a vizinha Mariazinha Conde.

Há momentos em que ainda tem saudades do trabalho do tear, da lançadeira e das mantas tecidas.

Era uma alegria cada vez que terminava uma manta. Não tinha mãos a medir para tantas encomendas o que, por vezes, a obrigava a prolongar o serão. Os tempos eram outros e, como não havia electricidade, o trabalho era feito à luz da candeia.   

 

 

Amor ao Marmeleiro

 

 

“Ir viver para outro lado, nem pensar. Fui aqui criada e é aqui que vou continuar”, responde Ana de Deus sobre a eventualidade de trocar o Marmeleiro por outro lugar qualquer. E arremata: “Minha casa minha casinha, merda para o rei e para a rainha”.

Sempre viveu na Rua do Passo, numa casa de granito sadio da região, com pedras bem aparelhadas e alguma elegância.

O apego a este lugar fica bem expresso na quadra popular que os moradores, desta zona da aldeia, conhecem de cor e salteado:

 

Adeus, ó Largo do Passo,

Adeus, ó Pedra Redonda,

Onde as moças se vão sentar

Para ver passar a ronda.

 

À janela ou sentada no balcão em frente, vai passando os dias por entre dois dedos de conversa com a vizinha, a Ti’Mariazinha Conde. Há sempre motivo para umas palavrinhas, nem que seja falar do tempo.

No quintal das traseiras da casa, ainda cultiva os mimos da hortaliça, para que nada falte na hora da refeição: couves, alfaces, ervilhas, favas, batatas, alhos, cebolas, planta de tudo um pouco. Tal como ela diz, “não é por necessidade, mas para ajudar a passar o tempo”.

“Não vá o dialho (diabo) tecê-las”, quando está em casa tem sempre a porta da rua, fechada à chave. Lá diz o ditado que “cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém” e como agora há cada vez menos gente, “vale mais prevenir que remediar”.

A caminhar para os 85 anos, Ana de Deus é exemplo de dedicação à terra que a viu nascer. Ao longo da vida, já assistiu a muitas mudanças nos hábitos da aldeia, nomeadamente com a chegada da electricidade, da água canalizada e da estrada alcatroada.

Gosta de recordar os tempos antigos mas está consciente de que, actualmente, se vive melhor e com outras condições.

Para trás, ficam anos de muito trabalho, sacrifício e dedicação, sempre a pensar no bem-estar das pessoas mais próximas.

Ana de Deus continua a tecer, não mantas, mas uma história de vida que tem o Marmeleiro como centro do mundo.



[1] Cantiga recolhida junto de Maria Augusta Pereira

[2] Sobre este local, Adriano Vasco Rodrigues escreveu em «As Ferrarias do Marmeleiro – Subsídios para o estudo da metalurgia na região da Guarda»: «As Ferrarias estendem-se próximo da Ribeira do mesmo nome, que vai confluir com a Ribeira de Ade, a qual por sua vez desagua no Côa. As maiores elevações visíveis daquela área são o Cabeço de S. Martinho, o Cabeço das Fráguas (onde existe uma citânia) e o Cabeço de S. Cornélio (célebre pelas lendas que dele correm e pelas ruínas que existem à sua volta, onde outrora exploraram o cobre).

Propriamente o local das Ferrarias estende-se numa planura que para Nordeste se alonga até à Quinta de Gonçalo Martins (anexa do Marmeleiro).

A planura das Ferrarias é aproveitada agricolamente para o pasto (lameiros) e terrenos lavradios de centeio.

Nesta época do ano (Agosto), as ruínas das habitações que a capa da terra encobre, descobrem-se pelos diferentes matizes do centeio, que nuns lugares é mais viçoso do que noutros. Isto explica-se pela penetração dos caules no solo e absorção de água, que é menos quando encontram alicerces ou restos de construções. (…) Há ali um pequeno pinhal, que marca, precisamente a área mais rica em escórias. O nome de Ferrarias provém da intensa exploração de ferro que ali houve. Um vasto rectângulo com cerca de 800 metros de comprimento por 600 de largura apresenta escória de ferro.

A quem se deve este centro metalúrgico? Uma prospecção rápida ofereceu-nos alguns elementos que nos permitem atribuir aos Romanos a maior actividade.

Contudo, é provável que a fundição se tenha alongado pela Idade Média. (…) a visita ao terreno revelou-nos abundância de tegulae, fragmentos cerâmicos e mós circulares.

No pinhal existem os restos dum templo de pequenas dimensões. Encontram-se as bases assentes na rocha de cinco colunas cilíndricas. Numa das ruas do Marmeleiro está a servir de banco um capitel proveniente das Ferrarias e que condiz com as proporções destas bases.

Nas cristas das rochas, que ainda estão a descoberto, vêem-se quatro pias cavadas e que deviam ter servido para nelas assentar os cadinhos. Dizemos isto pela forma que apresenta e pela corrosão, devido ao fogo, que o granito mostra. Tão intensa foi que não permite desenvolvimento do musgo.

(…) Nas Ferrarias nasce um ribeiro, o Gorgolão. Sua canalização, segundo nos informaram, é de tijolo. Trata-se de uma nascente que faz lembrar um poço artesiano. A água sai em gorgoladas. Daí o seu nome.

(…) Esta zona possui ouro, estanho, ferro e outros metais cujo valor o homem primitivo desconheceu”.

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publicado por Marmeleiro às 12:49





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